O dia em que quase tudo deu errado ou o jogo dos sete erros.

O título também poderia ser: Dormindo mal e suas consequências para o mergulho tech.

Passei uma semana envolvida com vários problemas e com pouco sono.

O mergulho estava previsto para domingo, aparentemente haveria tempo para me recuperar. Sexta feira uma happy hour com amigos se transformou numa noitada com  direito a cachaça. Mas tinha o sábado para me recuperar… dia em que também não consegui dormir cedo.

Acordo domingo tudo aparentemente normal, porém passei ao lado do meu carro com o equipamento e NÃO VI. Continuei procurando o carro até me lembrar onde tinha deixado. Já comecei a ficar meio preocupada – eu passei DO LADO arrastando o equipamento e meu carro não é prata ou preto, é azul.

Mas vamos lá, perdoável, eu estava olhando para longe, onde achava que o carro estava.

Missão do dia, eu e mais um tech já credenciados íamos descer junto com o instrutor e três alunos em check out de tech. Alguém ia carretilhar e íamos mergulhar no nada, só para treinar, mas com descompressão real.mergulho01_02

Montei o equipamento perfeitamente, eu achava. Fui de sidemount e resolvi reduzir 2 kg de lastro em relação ao último mergulho, pois estive muito pesada. Coloquei os 8 kg na “placa” de pesos que fica atrás do colete, excelente para uso com side. Assim, só precisava de mais dois na cintura para completar os 10 kg que eu queria. Coloquei os lastros – eu tinha certeza – e aparafusei a placa, uma tarefa meio chata, principalmente com todos os lastros, que repito, eu tinha certeza que estavam lá…

Montagem dos três cilindros (dois S80 do side e o stage), revisão do planejamento, acerto do computador, análise do gás, marcação do cilindro… fui fazendo com calma, e, eu achava, com a devida atenção.

Seguindo as orientações do instrutor, eu tinha certeza de qual era a missão e meu papel – eu e meu dupla já credenciados passaríamos a carretilha e faríamos o nosso mergulho enquanto os outros faziam sua aula. Eu estava convicta da tarefa e eu estava certa também que meu dupla iria passar a carretilha. Só esqueci de conferir com ele se ele estava tão convicto quanto eu…

Começa o mergulho, chego ao fundo e percebo que estou mais para neutra, não estou pesada como é de se esperar no início de um mergulho tech com dois S80 e um S40 tudo cheio. Já fico meio preocupada ponderando se devo fazer descompressão ou devo parar o mergulho antes.

Os alunos acabam levantando muita suspensão, um salseiro danado, e é complicado achar meu dupla. Lá pelas tantas, acho meu dupla, mas o cabo eu já não sei onde está. Meu dupla está parado, esperando não sei o que. Quando o instrutor irritado e/ou assustado aborta o mergulho e manda todo mundo subir…

Segundo erro: não combinei com meu dupla. Embora eu estivesse certa da missão eu não perguntei a ele se ele estava certo também.

Fiquei até aliviada, pois eu já estava pensando em abortar o mergulho mesmo, devido ao lastro insuficiente. Subimos, o instrutor foi dando a bronca e revendo o planejamento para retornar ao mergulho. Eu decidi ir buscar mais lastro. Pensava em acrescentar os 2 kg que eu pensava ter reduzido.

Primeiro pedi ao barco um cinto com 2 kg e tentamos colocar dentro d´água. Tenta assim, tenta assado, cansa, desisti. Resolvi subir, desequipar e colocar o cinto.

A tripulação estava ocupada com qualquer coisa, tirei o stage, chamei para alguém vir pegar, mas tive dificuldade para tirar o cilindro do lado esquerdo, e sem ajuda tentei  subir com os dois, fiquei entalada na escada, voltei para a água, já sem as nadadeiras, mar balançando, apanhei um pouco para tirar, fechei o cilindro para desconectar a mangueira da roupa seca… acabei subindo já estressada e cansada. Coloquei o cinto, mas resolvi esperar um pouco… pensei, não, isso não está legal. Já gastei muito ar, já estou cansada, nada de descompressivo hoje. Largamos os stages no barco.

Talvez uma das únicas decisões sensatas do dia.

Resolvemos fazer um recreativo mesmo nas pedrinhas.

Ao iniciar a descida resolvi trocar logo o regulador para o cilindro da esquerda, pois o da direita já estava com só 120 bar. Eis que estava fechado, pois tinha fechado para desconectar a mangueira da roupa seca e não abri novamente… e foi a primeira vez na minha vida que lembro de levar um regulador à boca sem purgar para testar, logo essa, que estava fechado. Volta para o regulador do cilindro da direita, abre a torneira… Eu estava melhor lastreada, mas ainda com dificuldade para descer. E sem entender. Pior, sem notar que algo teria que estar errado. Meu dupla me ajuda a descer, a roupa seca começa a me apertar, levo o dedo ao botão para inflar a roupa, eis que a mangueira está desconectada… bora conectar. Isso me rendeu algumas manchinhas roxas nos braços…

Começo o mergulho bem e tal… mas lá pela metade começo a ficar MUITO positiva. Meu dupla arruma uma pedra e eu passo mais da metade do mergulho agarrada a ela, mas por duas vezes ela caiu e fiz um enorme esforço para pegá-la.mergulho01_03

Acabamos o mergulho sem grandes incidentes, volto para o barco, e ao desmontar o equipamento… só tinham QUATRO kilos na placa de lastro ao invés dos oito que deveriam estar lá. Desvendado o segredo da flutuabilidade descontrolada.

Depois disso, só me restava chegar em casa e ajoelhar no milho.

Uma sequencia de erros que poderia ter levado a problemas BEM sérios.

E nunca mais pensar em fazer mergulho tech sem estar bem descansada, bem dormida, bem atenta.

Monica Di Masi

Arquiteta, PhD em Planejamento Energético e Ambiental, Dive Master PADI e Mergulhadora Tech.

O Dive Master mala

Já falei do dupla mala, mas também tem o Dive Master mala. Na Florida, em Key Largo, onde fui mergulhar sozinha (e comprar equipamentos, hehehe), quis evitar um dupla mala e contratei mergulho guiado para os naufrágios. Num desses mergulhos tive que enfrentar um típico DM mala. Um alemão que queria tanto mostrar serviço que além de ser irritante acabou produzindo efeitos contrários ao pretendido, que era dar mais segurança ao mergulho.
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Na verdade não acho que ele queria dar mais segurança ao mergulho, mas sim mostrar serviço e merecer uma boa gorjeta, pois lá é costume a gorjeta para a tripulação. Mas ele se deu mal, pois sou brasileira e não dou gorjeta por esse serviço, além do mais, ele me irritou tanto que não fiquei a fim mesmo…

A postura pedante de quem te acha uma retardada, até a máscara ele arrancou da minha mão para lavar de novo. Apareceu com um cilindro gigantesco dizendo que seria para me fornecer ar caso o meu acabasse. Hum. O mergulho que estávamos fazendo exigia um certo nível de certificação. Mas vá lá…. só que ele estava tão agitado que deixou solto e o cilindro dele caiu.

Todos os direitos resaervado © Roberto Palmer
Todos os direitos reservados © Roberto Palmer

A checagem do meu equipamento incluiu desmontar tudo o que eu tinha montado. E detalhes completamente desprezíveis. Por exemplo, a alça do colete “tem que” ficar presa entre o cilindro e o regulador. Ah ta…. Me deu aula disso. Tudo o que eu ia fazer ele interrompia. Arrancou a máquina fotográfica da minha mão e tirou um monte de fotos que eu jamais tiraria, fotos minhas com todas as caretas típicas do mergulho. Pra que isso???? Eu perguntei. Ele disse que era para mostrar para minha família. OK, tenho mais de 500 mergulhos. Minha família já entendeu que faço isso. Não preciso de provas! Só de boas fotos. Vamos para o mergulho… Ufa, o mergulho não foi tão ruim, aos poucos ele relaxou e pude aproveitar. Mas a questão do equipamento me deixou irritada, sim. Conferir o equipamento é obrigação. Mas desmontar e montar de novo não é checar. E impor uma configuração sabendo que não é obrigatória e eu prefiro outra? Arrancar uma máscara que eu já tinha passado anti embaçante e lavado para lavar de novo?

Já num liveaboard encontrei um Dive Master figura que era o oposto. Ninguém conseguiu descobrir a que veio. Não fazia nada. Tentou remanejar as cabines para ganhar uma só para ele, dormia que nem um porco, pegava nossas cangas para se enrolar, era o primeiro a se servir na comida e na sobremesa, procurando sempre os melhores pedaços para ele…rs… Tomava banhos detalhados após cada mergulho (não sobra água doce num barco!)… O que faz uma figura dessas num barco? Rsrs lembro: ele não estava de férias, estava a trabalho…. Eu acho.

Outra situação ocorreu durante o curso tec. Quando eu já estava pronta para o passo do gigante – e levantar do banco com uma dupla nas costas é uma odisséia para mim – sinto algo na torneira esquerda. Era o DM “conferindo” se estava aberta! Affffffffff….. quando, posteriormente, fiz meu curso de DM, encontro no manual: nunca toque no equipamento de um mergulhador técnico! Está lá! Aliás, tem muito DM que está precisando reler o manual. Eu sigo me esforçando para não ser como nenhuma dessas figuras que encontrei nos barcos da vida.

Monica Di Masi

Arquiteta, PhD em Planejamento Energético e Ambiental, Dive Master PADI e Mergulhadora Tech.